Domingo, Novembro 08, 2009

2ª JORNADA SESC DE ESTUDOS DA POESIA

Sidnei Schneider (mediador) e Armindo Trevisan:
Breve história da poesia ocidental.




Sidnei Schneider (mediador) e Antonio Cicero:
O poema enquanto obra de arte

Ruben Penz, Fabrício Carpinejar (mediador) e Marlon de Almeida:
A poesia da crônica e a crônica da poesia.

Nayr Tesser, Uili Bergamin (mediador) e Maria Carpi:
A transposição do real para o imaginário.


Ronaldo Werneck , Uilli Bergamin (mediador) e Sérgio Napp:
Por que a poesia não tem o apelo popular da ficção?
Algumas fotos , quem tiver das outras mesas, favor fazer contato.

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Sexta-feira, Novembro 06, 2009

FATO JORNALÍSTICO: O POEMA E A VERSÃO

O Jornal do Comércio do dia 06.11.2009 publicou um poema meu na seção Livros, o que muito me honra. Ocorreu, no entanto, uma adequação do poema à linguagem prosaica, e o que era "para ser lido aos tropecinhos", no dizer de uma amiga escritora, ficou liso e aguado.

Perdeu-se um trabalhado corte do verso do tipo enjambement, a multiplicação dos significados entre o que é sugerido no final de um verso e o que se depreende ao continuar a leitura no outro, a proposital busca da lenta fruição através do lento descortinar de termos e versos, a similitude entre dizer e discer e o reforço do desejo de dizer algo para a amiga em função dessa quase repetição (ao modo do que acontece entre lábil - que escorrega, desliza ou cai facilmente - e lábios), a visualmente oblíqua rima entre dormir e nir em troca de uma menos criativa com discernir, o mesmo quanto à rima vocálica entre favo e labios, a simetria entre as posições de sem e con no segundo e penúltimo versos gerando novo sentido, a proximidade entre as aliterações de avesso e favo, etc.

Enfim, perdeu-se um bocado de trabalho e poesia. A palavra espanhola labios, porém, ganhou um acento agudo...

E, é preciso que se o diga, foi enorme a boa vontade do jornalista em me solicitar um poema, em publicar poemas na sua coluna como há muito tem feito, esse objeto estético-literário tão ausente dos grandes jornais, e nem é a primeira vez que nela figura algum trabalho meu. Talvez o diagramador tenha resolvido diminuir o número de linhas seguindo as leis de economia da área de papel ou compreendeu que havia quebra involuntária dos versos, não sei. Mas como resolver esse problema, nada incomum nas redações de jornais e revistas? Como tratá-lo sem ser mal-agradecido, como agradecer sem ser subserviente?

Como garantir à poesia o que é da poesia?

P.S. 09.11.2009: O JORNALISTA RESPONSÁVEL, MUITO AMA-VELMENTE, INFORMOU QUE ENVIOU O TEXTO DO POEMA CONFORME O RECEBEU, DESTACANDO QUE ALGUMA COISA OCORREU NA HORA DA DIAGRAMAÇÃO.


Abaixo, o poema como o escrevi, e depois, comforme publicado:


PER UNA AMICA

não vou dormir
sem
do recanto lábil
da
tua fala dizer
pelo
menos um discer-
nir
avesso de todo
favo:
me gusta hablar
con
tigo sin labios

Sidnei Schneider


Per uma amica

não vou dormir
sem do recanto lábil
da tua fala dizer
pelo menos um discernir
avesso de todo favo:
me gusta hablar
contigo sin lábios

Sidnei Schneider

Quarta-feira, Novembro 04, 2009

20 NOV LANÇAMENTO OLIVEIRA SILVEIRA

Poemas, de Oliveira Silveira, será lançado dia 20/Nov, na Casa de Cultura Mário Quintana, Sala A2-A2, 19 horas.

Palmares é Angola Janga.
Nem é só Zumbi ou Ganga
Zumba, senhores, Palmares
Não é só um, são milhares.

Oliveira Silveira.

A Associação Negra de Cultura (ANdC) selecionou 20 nomes para contribuírem na edição do livro Poemas, de Oliveira Silveira, que será lançado na Casa de Cultura Mário Quintana, Sala A2/B2, no dia 20 de novembro de 2009, sexta-feira, às 19h. A publicação busca homenagear o grande poeta e ativista do Movimento Negro, falecido em 1º de janeiro passado, que partiu aos 67 anos de idade, deixando uma obra a ser lida e reconhecida. Participam do evento o sociólogo Edson Lopes Cardoso, editor do jornal Irohin, de Brasília, os escritores Cuti e Oswaldo de Camargo, de São Paulo, que abordarão a obra e a militância do poeta, os atores Vera Lopes e Sirmar Antunes, apresentando um recital de poesias de Oliveira Silveira, e o Coral do Cecune.

“Se hoje no Brasil estamos, em uma posição melhor do que nossos antepassados quando aqui chegaram, é porque aprendemos com eles a nos ajudar, isto é, no revezamento simbólico (4x100) soubemos passar o bastão”, comenta Jorge Fróes, Secretário Cultural da ANdC. “Mais do que a memória de Oliveira Silveira, são suas palavras, nelas, há forças que precisam continuar a serem repassadas, são palavras vivas”, complementa.

Formado em Letras (Português e Francês) pela UFRGS, Oliveira Silveira nasceu em Rosário do Sul, município situado na fronteira oeste do estado do Rio Grande do Sul, em 1941, tendo sido criado na zona rural, na Serra do Caverá. Foi poeta, ensaísta, músico e ativista do Movimento Negro, além de ter o mérito de ter sugerido a evocação do 20 de Novembro lançado e implantado no Brasil pelo Grupo Palmares, a contar de 1971, e que posteriomente, em 1978, o Movimento Negro Unificado identificou como Dia Nacional da Consciência Negra.

Publicou, entre outros, Germinou, Porto Alegre, 1968; Banzo, Saudade Negra, Porto Alegre, 1970; Pêlo Escuro, Porto Alegre, 1977; Roteiro dos Tantãs, Porto Alegre, 1981; Anotações à Margem, Porto Alegre, 1994. Todos livros de poesia. Seus poemas também foram traduzidos, entre outras línguas, para o inglês e o alemão, e essas traduções apareceram respectivamente na revista Callaloo,The Johns Hopkins University Press, 1995, e na antologia Schwarze Poesie, Edition Diá, 1988. Entre 2004-2006, foi conselheiro da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República. O livro “Poemas” estará à venda no evento por R$ 20,00.

Editores participantes: Antonia Marisa Carolino, Clélia Eunice Ferreira Machado, Elaine Oliveira Soares, Eliane Maria Severo Gonçalves, Eloy Dias dos Angelos, Evandoir Santos, Giane Vargas Escobar, Jones Lopes da Silva, Juarez Ribeiro, Maria Conceição Lopes da Fontoura, Maria Silveira Marques, Marieta Silveira, Naiara Rodrigues Silveira, Nilo Feijó, Ronald Augusto, Sátira Machado, Sílvia Maria Prado da Silva, Vera Lúcia Lopes, Vladimir Rodrigues, Zelma Madeira.

[clique na foto para ampliar]

Sábado, Outubro 31, 2009

TVCOM: GRÁFICA GAÚCHA III e POEMAS GRAVADOS II

Parte 1



Parte 2



Exposição de gravuras "Gráfica Gaúcha III - Independentes e Novíssimos", e de gravuras com poesia, "Poemas Gravados II".

GRÁFICA GAÚCHA III
Curadoria: Anico Herskovits

Independentes: Ana Alegria, Clarice Jaeger, Esther Bianco, Francisco Riopardense de Macedo, José Carlos Moura, Luis Brasil, Maria Inês Rodrigues, Paulina Eizirik, Saint Clair Chamin.

Novíssimos: Ana Vergamini, Fernanda Soares, Jane Machado, Lana Lanna, Marcelo Monteiro, Marcelo Soares, Marcos Sanches, Nara Amélia, Raquel Lima, Raquel Schwonke, Rodrigo Pecci, Suzel Neubarth, Zupo.

POEMAS GRAVADOS II
Org.: Anico Herskovits e Sidnei Schneider

Poetas: Alexandre Brito, Élvio Vargas, Eduardo Degrazia, Jaime Medeiros Jr, José Antônio Silva, José Weis, Jorge Rein, Laís Chaffe, Liana Timm, Neli Germano, Telma Scherer, Sidnei Schneider.

Artistas plásticos: Arlete Santarosa, Cylene Dallegrave, Inói Varela, Jane Machado, Mabel Fontana, Marta Loguércio, Marcelo Monteiro, Miriam Tolpolar, Paulo Chimendes, Raquel Lima, Rodrigo Pecci, Anico Herskovits.

Produção Marisa Veeck. Realização CC-CEEE Erico Verissimo.
Edição para YouTube: Sidnei Schneider

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Quinta-feira, Outubro 29, 2009

ALGUMAS FOTOS POEMAS GRAVADOS II

Clique nas imagens para ampliar
Marcelo Monteiro, Kátia Suman, Anico Herskovits

Bandeirinhas Poemas Gravados

Sidnei Schneider e Raquel Lima

Telma Scherer, Sidnei e Marcelo

Marcelo, Kátia, Anico e cinegrafista

Neli Germano e Raquel

Mandem mais fotos!

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Terça-feira, Outubro 27, 2009

MINI-METRAGENS CIDADE POEMA

Nessa quinta, 29/10, acontece o Happy Hour Especial do CIDADE POEMA na Alameda dos Escritores do Shopping Total, das 19h às 20h.

Exibição de MINI-METRAGENS PO-ÉTICOS, aperitivos de um projeto maior, dirigidos pela cineasta e escritora Laís Chaffe - que entram em cartaz em três salas do Cinesystem, dia 30/10, e serão exibidos alternadamente até 30/11, junto às sessões principais. C
onvidado, participo de um deles.

Performance de Deborah Fonocchiaro, e bate-papo com a escritora Christina Dias.

POETAS E CRÉDITOS:

Alexandre Brito, Celso Gutfreind, Diego Petrarca, José Eduardo Degrazia, Maria Carpi, Paula Taitelbaum, Paulo Seben, Ricardo Silvestrin, Sidnei Schneider e Telma Scherer dizem poemas seus ou de poetas que admiram.
A direção é de Laís Chaffe, com trilha sonora assinada por Beto Chedid (dos Cowbees), direção de fotografia de Rodinério da Rosa, edição de Tiago Damaman e direção de produção de Kika Lisboa.

POESIA NOS ELEVADORES E ESPELHOS DE BANHEIROS:

Até o final de novembro, os sete elevadores do Shopping Total vão expor 14 adesivos poéticos ilustrados pelo designer Auracebio Pereira (o Aura), enquanto os espelhos dos banheiros passam a exibir outros oito poemas, com ilustrações do artista plástico Guilherme Moojen.
Como em ações anteriores, o Cidade Poema divulga tanto poetas clássicos quanto autores locais contemporâneos. Quem passear pelo shopping poderá conferir versos de Fernando Pessoa e John Keats, assim como poemas dos gaúchos Alexandre Brito, Ana Mello, Augusto Franke Bier, Celso Gutfreind, Denair Guzon, Diego Petrarca, Laís Chaffe e Lau Siqueira.

Dá-lhe, Laís!

Domingo, Outubro 25, 2009

GRAVURAS & POEMAS ATÉ 16 DEZEMBRO

Bem legal a abertura da exposição Gráfica Gaúcha III, Independentes e Novíssimos, junto a de Poemas Gravados II, de gravuras com poesia. Além da apreciação das beleza das obras, o público acompanhou as diferentes técnicas de gravura em impressões realizadas na hora e distribuídas gratuitamente. E ainda pôde levar para casa o belo catálogo-livro e concorrer a 24 gravuras com poemas, sorteadas no final.

O esperado afluxo de convidados a alguns surpreendeu. A TVCom, através do programa Camarote, apresentado por Kátia Suman, transmitiu extensa reportagem ao vivo, e a TVE também fez ótima matéria. Jornais noticiaram, vídeos foram gravados e fotógrafos registraram a festa. Em breve, será possível assistir a parte do evento no YouTube. Por fim, uma esticada dos mais animados ao bar Odeon celebrou o sucesso da abertura.

Aberto até 16 de Dezembro, o evento sorteia 20 gravuras com poemas por semana, bastando o visitante utilizar a urna da recepção. Livros de poesia e gravuras expostos nas vitrines horizontais também podem ser adquiridos no Café do local ou conforme indicado.

Serviço:
Centro Cultural CEEE Erico Verissimo
Rua dos Andradas, 1223
20 Out à 16 Dez 2009
Terça à sexta, das 10h às 19h, e sábado, das 11h às 18h
Entrada franca

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Sexta-feira, Outubro 16, 2009

POEMAS GRAVADOS II

Abre nesta terça, 20 de outubro, a exposição Poemas Gravados II, com gravuras e poemas em diálogo, na Sala Arquipélago do Centro Cultural CEEE Erico Veríssimo (Rua dos Andradas, 1223), 19 horas. Dessa vez, coube a cada poeta elaborar um texto a partir de uma gravura, ao contrário do que aconteceu em 2008.

Organizada pela artista plástica Anico Herskovits e pelo poeta Sidnei Schneider, o evento associa-se à mostra Gráfica Gaúcha III - Novíssimos e Independentes, que acontece no mesmo local e horário, sob a curadoria de Anico.

Durante a visitação pública, de 21 de outubro a 16 de dezembro, serão sorteadas gravuras com poemas a cada semana, num total de 150, para quem preencher o cupom. (De terça à sexta, das 10h às 19h, e sábado, das 11h às 18h).

POETAS

Alexandre Brito
Élvio Vargas
Eduardo Degrazia
Jaime Medeiros Jr
José Antônio Silva
José Weis
Jorge Rein
Laís Chaffe
Liana Timm
Neli Germano
Telma Scherer
Sidnei Schneider

ARTISTAS PLÁSTICOS

Arlete Santarosa
Cylene Dallegrave
Inói Varela
Jane Machado
Mabel Fontana
Marta Loguércio
Marcelo Monteiro
Miriam Tolpolar
Paulo Chimendes
Raquel Lima
Rodrigo Pecci
Anico Herskovits

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Quarta-feira, Outubro 14, 2009

ODE AO GATO: PABLO NERUDA

À Maiara,
Edna,
Fabriano,
Mara,
Clarissa,
Juliana,
Stefania
e todos
amantes
de felinos.
Foto: poeta
Mara Faturi.

ODE AO GATO

Os animais eram
imperfeitos,
compridos de rabo, tristes
de cabeça.
Pouco a pouco foram se
compondo,
fazendo-se paisagem,
adquirindo pintas, graça, vôo.
O gato,
só o gato
apareceu completo
e orgulhoso:
nasceu completamente terminado,
anda sozinho e sabe o que quer.

O homem quer ser peixe e pássaro,
a serpente quisera ter asas,
o cachorro é um leão desorientado,
o engenheiro quer ser poeta,
a mosca estuda para andorinha,
o poeta trata de imitar a mosca,
mas o gato
quer ser só gato
e todo gato é gato
do bigode ao rabo,
do pressentimento à ratazana viva,
da noite até os seus olhos de ouro.

Não há unidade
como ele,
não tem
a lua nem a flor
tal contextura:
é uma coisa só
como o sol ou o topázio,
e a elástica linha em seu contorno
firme e sutil é como
a linha da proa
de uma nave.
Os seus olhos amarelos
deixaram uma só
ranhura
para jogar as moedas da noite.

Oh pequeno
imperador sem orbe,
conquistador sem pátria,
mínimo tigre de salão, nupcial
sultão do céu
das telhas eróticas,
o vento do amor
na interpérie
reclama
quando passas
e pousas
quatro pés delicados
no solo,
cheirando,
desconfiando
de todo o terrestre,
porque tudo
é imundo
para o imaculado pé do gato.

Oh fera independente
da casa, arrogante
vestígio da noite,
preguiçoso, ginástico
e alheio,
profundíssimo gato,
polícia secreta
dos quartos,
insígnia
de um
desaparecido veludo,
certamente não há
enigma
na tua maneira,
talvez não sejas mistério,
todo o mundo sabe de ti e pertence
ao habitante menos misterioso,
talvez todos acreditem,
todos se acreditem donos,
proprietários, tios
de gatos, companheiros,
colegas,
discípulos ou amigos
do seu gato.

Eu não.
Eu não subscrevo.
Eu não conheço o gato.
Tudo sei, a vida e seu arquipélago,
o mar e a cidade incalculável,
a botânica,
o gineceu com os seus extravios,
o pôr e o menos da matemática,
os funis vulcânicos do mundo,
a casaca irreal do crocodilo,
a bondade ignorada do bombeiro,
o atavismo azul do sacerdote,
mas não posso decifrar um gato.
Minha razão resvalou na sua indiferença,
os seus olhos tem números de ouro.

Pablo Neruda
Navegaciones y Regresos, 1959

Sexta-feira, Outubro 09, 2009

ORIDES FONTELA

O poema Fala,

do livro Transposição (1969),

o primeiro publicado pela poeta,

é já um clássico

da poesia brasileira.


FALA

Tudo
será difícil de dizer:
a palavra real
nunca é suave.

Tudo será duro:
luz impiedosa
excessiva vivência
consciência demais do ser.

Tudo será
capaz de ferir. Será
agressivamente real.
Tão real que nos despedaça.

Não há piedade nos signos
e nem no amor: o ser
é excessivamente lúcido
e a palavra é densa e nos fere.

(Toda palavra é crueldade).


Orides Fontela, 1940-1998.

Quinta-feira, Outubro 08, 2009

JORNADA DE POESIA + A BUSCA DO NOVO:

Participar de mesas de debates é ótimo, sempre se sai delas enriquecido. Na 2ª Jornada SESC de Estudos de Poesia, realizada em Bento Gonçalves de 05 a 09 Outubro de 2009, tive o privilégio de ser o mediador dos poetas Armindo Trevisan, na abertura, e Antonio Cicero (foto), no en-cerramento. Fabrício Carpinejar, Marlon de Almeida, Ricardo Silvestrin, Alexandre Brito, Ronald Augusto, Telma Scherer, Rubem Penz, Sérgio Napp, Dilan Camargo, Maria Carpi, Maria do Carmo Campos, Caio Ritter, entre outros, também fizeram parte do evento.
O título da primeira mesa era verdadeiro oxímoro, Breve história da poesia ocidental, mas excelente enquanto provocação. Armindo Trevisan iniciou lendo poemas sumérios de 6.000 anos atrás, originalmente escritos em cuneiforme em frágeis tabuinhas de barro. Seguiram-se poemas da Babilônia e do antigo Egito, com direito à fuga para os não muito ocidentais China e Japão, saltando então para a Roma de Catulo. O recorte privilegiou a lírica, com poemas amorosos, eróticos, lamentações e elegias, talvez por ser a poesia épica do período mais estudada. Com o tempo da palestra se exaurindo, limitei-me a dizer algo sobre a permanência quase despercebida dos poetas latinos entre nós, inclusive na linguagem cotidiana, citando trechos de Lucrécio, Ovídio e Virgílio. Conviver, viajar e falar de poesia com Trevisan também foi muito bom.
Não conhecia Antonio Cicero pessoalmente, um cara muito afável e tranquilo. Na mesa O poema enquanto obra de arte, levantou aspectos formais e possibilitou que se fruíssem em detalhe poemas de Carlos Penna Filho, Cruz e Sousa, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e Augusto de Campos, alargando as possibilidades de leitura do público.
Na impossibilidade de reproduzir as palestras, destaco artigo de Antonio Cicero sobre a questão do novo em poesia. Ainda que aí não se trate de discutir em conjunto os equívocos do concretismo e de Pound, a suposta supremacia dos poetas inventores a frio, defendida por aqueles e não apenas por Mario Faustino, é criticamente superada com argumentação equilibrada e consistente.

A BUSCA DO NOVO

Antonio Cicero

O poeta Ezra Pound inventou inúmeros slogans, máximas, esquemas classificatórios, etc. O problema de tais gnomas e traçados é que, retirados dos contextos -muitas vezes polêmicos- em que foram enunciados, eles tendem a esclerosar, tornando-se dogmas que empobrecem as questões a que se referem.
Assim foi, por exemplo, a classificação dos poetas em inventores, mestres e diluidores. Com base nela, Mário Faustino, por exemplo -que, entretanto, em outras ocasiões, mostrou-se um crítico perspicaz-, foi capaz de declarar que Carlos Drummond de Andrade era, "quando muito, um "master". Não é um "inventor" [...]. Nunca seria um Pound, nem mesmo um Eliot".

A meu ver, vários equívocos se manifestam nessas proposições, todos devidos à aplicação rígida das classificações de Pound. Elas pressupõem, por exemplo, que Ezra Pound seja indiscutivelmente melhor do que T.S. Eliot. Por quê? Porque Pound se aproximaria mais do paradigma do inventor. Ora, 50 anos depois de Faustino ter feito esse juízo, nada indica que o valor relativo desses dois poetas venha algum dia a ser um ponto pacífico. Eu mesmo, se tivesse que escolher entre os dois, ficaria com Eliot.

Outra pressuposição inaceitável é a de que Drummond jamais estaria à altura de "um Pound" ou de "um Eliot". Como pode Faustino pensar isso? É que Drummond, segundo ele, é um mestre, não um inventor. Mas, para mim, é claro que Drummond era um inventor, um mestre e, às vezes, até um diluidor: e que era capaz de ser tudo isso num só poema. Que grande poema não é simultaneamente uma obra de mestria e de invenção? Drummond foi um dos maiores acontecimentos da poesia do século 20 e, enquanto poeta, não é em nada inferior a Pound ou a Eliot ou a quem quer que seja.

Mas o culto ao inventor é freqüentemente associado ao slogan "make it new", que pode literalmente ser traduzido por "faça-o novo" e, menos literalmente, por "faça o novo". A própria idéia da valorização da novidade não é nova; nem é nova a rejeição a essa idéia. Na Atenas clássica, Isócrates já dizia que o importante não é fazer o mais novo, mas o melhor. Mas hoje ouço ou leio freqüentemente jovens poetas, influenciados por essas idéias, falando em "buscar o novo". Evidentemente, a intenção deles não é, por exemplo, achar alguma obra de arte que acabe de ser feita (logo, que seja nova) e copiá-la. Não: o que querem é achar alguma idéia nova (no sentido de que jamais tenha sido pensada). Ora, não há como buscar uma idéia de que não se tenha idéia nenhuma, e não se pode ter idéia nenhuma de uma idéia que não exista. Não há como buscá-la: uma idéia nova aparece ou não. Por isso, Picasso dizia, com razão: "Não busco, encontro".

No fundo, o problema está na descontextualização do slogan "make it new". Recontextualizando-o, o poeta Haroldo de Campos o interpreta como uma exortação a "remastigar a herança cultural universal para "nutrir o impulso': renovar". A injunção de Pound também deve ser entendida a partir da definição que ele próprio dá da literatura como "news that stays news": novas que permanecem novas; novidades que permanecem novidades. O novo que permanece novo não é simplesmente "o novo", mas aquilo que não envelhece. "Um clássico é um clássico", afirma Pound, com toda razão, "porque possui um certo eterno e irreprimível frescor".

Já os poetas líricos gregos pensavam desse modo. Os poetas épicos haviam considerado as Musas -as deusas que inspiram os poetas- como filhas da Memória. Supõe-se, às vezes, que isso representasse o reconhecimento da importância da memória e da memorização para a poesia oral. Outra hipótese é que esse mito refletisse o fato de que os poemas épicos preservavam a memória de feitos originários da comunidade.

Os poetas líricos, porém, compreenderam que o que preservava a memória dos feitos da comunidade era a memorabilidade dos próprios poemas que cantavam tais feitos. Para eles, o feito mais memorável de todos era, portanto, o próprio poema. A memória da Guerra de Tróia era preservada, não tanto porque fosse, ela mesma, memorável, mas em virtude da memorabilidade do poema que a cantava, a "Ilíada".

Nesse sentido, as Musas eram filhas da Memória porque representavam a fonte da qualidade (divina) que tornava os poemas deles -mesmo quando não tratavam dos "grandes temas", mas apenas, por exemplo, dos seus amores- inesquecíveis, memoráveis, dotados de "eterno e irreprimível frescor". (Grifos do blogueiro)

Artigo de Antonio Cicero publicado na Folha de São Paulo em 25.08.2007.

Guardar e outros poemas de A.C.

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Quinta-feira, Outubro 01, 2009

II JORNADA SESC DE ESTUDOS DA POESIA


Auditório Santo Antônio
Bento Gonçalves-RS

Clique no folder para ver a Programação Completa


Participo na abertura e no encerramento:

05.10. 2009 - Segunda - 19:30h
BREVE HISTÓRIA DA POESIA OCIDENTAL
Armindo Trevisan e Sidnei Schneider

09.10.2009 - Sexta - 20:30h
O POEMA ENQUANTO OBRA DE ARTE
Antonio Cicero e Sidnei Schneider

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Segunda-feira, Setembro 28, 2009

POETA CONVIDADO: JOSÉ ANTÔNIO SILVA

A partir do Çoita - grupo que em 2000 reuniu os poetas Ronald Augusto, Oliveira Silveira, José Weis, Cândido Rolim, Jorge Fróes, Haroldo Ferreira, José Antônio Silva e este blogueiro - ficamos amigos. Zé, como quase todos o chamam, é daquele tipo de escritor que produz o seu trabalho, lança os seus livros, participa de eventos e encontros, e, sem apego à excessiva badalação, vai construindo uma trajetória sólida e continua. Sem pressa ou afobamento, como deve ser.

Tiques & Taques (São Paulo: Klaxon, 1984) foi seu primeiro livro de poesia, hoje raridade. Seguiu-se o excelente Lá vem o que passou (Porto Alegre, SMC, 1995), da Coleção Petit Poa. Desses, vão publicados abaixo um poema de cada.

É autor da novela Diabo Velho (Porto Alegre: Mercado Aberto, 1998) e de O nome do Fuinha, e outras histórias de crime, mistério e algum amor. (Porto Alegre: AGE, 2003). Resenhas e ensaios jornalísticos estão reunidos em A Impressão da Cultura (Porto Alegre: Sulina, 1990).

Mas começou a publicar na década de 70, no antológico Há Margem (Porto Alegre: Lume, 1975), com outros doze autores, entre os quais Nei Duclós e Sérgio Capareli. O título não evidenciava apenas a literatura marginal produzida na época, indicava uma convicção na possibilidade de superar os anos difíceis de ditadura. Seguiu-se Vício da Palavra (São Paulo: Garnizé,1977), esforço cooperativado de 28 escritores, entre eles Caio Fernando Abreu, e ilustradores como Jayme Leão, Chico Caruso, Magliani, Santiago e Cláudio Levitan. Na década de 80, com os poetas Celso Gutfreind e José Weis, articulou o Vício e Verso, que fazia apresentações de poesia. Participou da revista-livro Continente Sul-Sur nº 9 (Porto Alegre: IEL, 1998.) e de Antologia do Sul, poetas contemporâneos do RS (Porto Alegre: Assembléia Legislativa, 2001), reunião de 90 poetas em plena atividade no período.

Mais poemas, contos e crônicas de José Antônio Silva, que também é jornalista, em Lavra Livre, blogue no qual se diverte: agora/ como um cão/ eu curto um post.

PURA

És tão pura,
sua puta
- além da imagem.

És puríssima
- Deus sabe.
Sabe o frade?

És a puta
sem pecado,
rito de passagem.

És purinha
- toda puta –
entre as comadres.

És pura mistura,
o tanto da flor,
a cara de laje.

És tão puta
- mas tão pura –
que isso arde.

És pura puta,
minha santa
- és o auge.

Lá vem o que passou, Col. Petit Poa,
Porto Alegre, SMC, 1995.



GAFANHOTO SÓ

Lá vem o gafanhoto
no meio da rua
frágil ágil
(na inconsciência
do quanto é vulnerável)

Um palito
com duas pernas secas
e dois braços tal e qual
enfrentando – chinelo de dedo –
o mundo moderno
ocidental
digital
exato caos

Lá vem ele
o gafanhoto
- por favor, um pouco de emoção! –
rufem os tambores
do coração
para o triplo salto mortal:
um gafanhoto
na Avenida São João

Tiques & Taques, São Paulo: Klaxon, 1984.


PORTO

Havia um porto premeditado
entre peixes
navios
e águas virtuais;

havia um ponto no futuro
ainda antes de haver porto
barcos
ou qualquer água;

havia um poço em ebulição
onde tudo se formava
definia
projetava;

havia um posto avançado da vida
- como a conhecemos -
no tecido do infinito.

Havia a cintilação do que há hoje
como imagem
que apenas esperava:
um porto singelo
num estuário de lago e rio
onde um pequeno bote
a remo
deixa seu rastro invisível
lento
pela memória das águas.

Antologia do Sul, Poetas Contemporâneos do RS,
Porto Alegre: Assembléia Legislativa, 2001.


Poemas de José Antônio Silva.
Publicação autorizada pelo autor.
[42.969 páginas visitadas até o instante dessa postagem]

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Sexta-feira, Setembro 25, 2009

A ARTE DE STEFAN DOITSCHINOFF

Stephan - é brasileiro, gente - saiu de São Paulo e foi morar no interior da Bahia. Pediu licença para pintar as paredes das casas dos moradores e outros espaços mais. O vídeo mostra a interação que se dá e a progressiva sensibilidade do artista quanto à cultura local. Dica do artista plástico porto-alegrense Marcelo Monteiro:

TEMPORAL : The Art of Stephan Doitschinoff (aka Calma) from Jonathan LeVine Gallery on Vimeo.

Quarta-feira, Setembro 16, 2009

JANE TUTIKIAN ANALISA "QUICHILIGANGUES"

A escritora Jane Tutikian, professora da Univer- sidade Federal do Rio Grande do Sul e doutora em Literatura Comparada, escreveu a apresentação de Quichiligangues, meu livro de poesia lançado em 2008. Atuando na área de Literatura Portuguesa, dedica-se à obra de Fernando Pessoa e poetas portugueses e africanos. Entre mulheres (WS, 2005), livro de contos, e Fica ficando (Edelbra, 2007), novela juvenil, estão entre suas últimas publicações. Recebeu os prêmios Jabuti, Açorianos e Tibicuera.

UM POETA DIFERENCIADO

Quem sabe/ sabe o quê?
S.S.

Quichiligangues é o segundo livro de poesias publicado de Sidnei Schneider, o primeiro foi Plano de Navegação (Dahmer, 1999). Não se pense, entretanto, que, por ser apenas o segundo, se está diante de um poeta iniciante, à procura de um caminho. Não! Está-se, isso sim, diante de um desses poetas que já nascem maduros, o primeiro livro já mostrava isso, e, por isso mesmo, aqui se reafirma um poeta diferenciado.

Em Schneider, não há a pressa da poesia fácil que desliza sobre superfícies frágeis e transitórias, tão comum no nosso tempo. Ao contrário, sem medo do modismo contemporâneo, como a cantora de ópera, sua poesia emerge da sensibilidade do homem, da inquietação estética do poeta, do conhecimento do mundo mitológico do bacharel em Letras. Esta é a fórmula de construção de Quichiligangues.

Abre o livro o belíssimo “De como lidar com rio”. Ao resgatar essa metáfora universal da vida, o poeta faz uma fala delicada e firme a este tempo, caracterizado pelo individualismo, pela descrença nos valores simples, pela destruição inconseqüente em nome de um viver feito de paradigmas relativos. Eis seu alerta: Não é pisando em peixes/ que conseguiremos atravessá-lo ou ponte não nos dará conhecê-lo. E, sabiamente, como todo o grande poeta, Schneider não impõe verdades: semeia dúvidas, incertezas, os talvez-caminhos: Com os braços dar forma/ ao nosso sonho de asas? Ou, quem sabe, De dentro domá-lo para sempre/ com um simples remo? A temática da água volta em “Oceaníade” e “Poema de inverno”, “Elegia da cantora de ópera” e “À modelo-vivo”. Todos da mesma qualidade.

“Tirésias” inaugura um outro tema recorrente do livro e preocupação essencial do poeta: ter a visão e não ver. Ele também está lá, de forma sutil, em “Os boxeadores”.

A tentativa de diálogo com a porta e o apelo desesperado do final: Fala! é o grito da incomunicabilidade e da solidão do amor, das pessoas, do mundo. O único mutismo quedo e exato que no vento produz carícias é o da evocação de Carlito.

“Descanso” e “Recomeço” dialogam entre si, feito exposição de desumanização, mas não há lugar para a desesperança na poesia de Sidnei Schneider, a desesperança não o [o trabalhador] adoece. “Ganha pão” se instaura também neste eixo temático, assim como “O bandônio”: agora quero alegria/ agora quero dançar/ mas cadê o bandônio!

A contemporaneidade ainda é vista crítica e delicadamente em “Cerâmica” ou em “Quem é que sabe?”, mesmo porque, se pergunta o poeta, Quem sabe,/ sabe o quê?

“Prometeu” é, sem dúvida, a síntese do fazer poético de Sidnei Schneider em Quichiligangues. Prometeu significa aquele que premedita, evoca aquele que, na mitologia, consegue, com habilidade, enganar Zeus. Aí, anuncia o poeta: Agrada-me o chegar perto do fogo,/ no tão próximo onde se desfazem/ as certezas, amo o gesto e o risco,/ a aventura do fogo. De fato, Quichiligangues é a aventura do fogo, é o risco da aventura, o desfazimento das certezas. É onde reside o prazer de sua leitura: na inquietação semeada no leitor. E quem há de negar que este é o melhor do melhor da poesia? Fecha-se o livro. Continua-se Quichiligangues.

JANE TUTIKIAN, junho 2008

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QUATRO POEMAS













NUMEROLOGIA

o medo era tanto
que ele marcou encontro
às 18h37min, e tinham
que se ver exatamente
às 18h37min,
e ele compareceu
agarrado e nu
nos números,
mas ela não.


FALTA DE PREVISÃO

os antigos mesopotâmicos
esqueceram de avisar
os horoscopistas
que nos dias de capricórnio
o sol não
está mais
nos limites
de capricórnio
como na época
dos antigos mesopotâmicos,
e agora, meu deus?


A AÇÃO DO ESPÍRITO

o poeta cria
que baixavam do espírito
gerente do universo ltda
os versos que produzia,
até que um dia
o espírito baixou
e deu uns sopapos
no poeta
por escrever
tão mal.


TESE CIRCULAR

o poeta jurava
que a poesia
não servia
pra nada,
foi contratado.
passou a usar versos
para vender coisas
que ninguém precisava,
ganhou carro e casa.
e continuou a defender
que a poesia
não servia pra nada.


Sidnei Schneider

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